O silêncio só é suportável aos amantes. Ele só é possível àqueles que já descobriram que as palavras podem estar a serviço da mentira e que a ausência delas é o momento propício para que o amor nos ensine a sua linguagem. Só quem ama é capaz de ouvir o que o outro diz, mesmo quando ele não fala
Conhecer é um recurso da razão. Recurso que utilizamos a partir de perguntas e respostas que insistimos em formular enquanto vivemos. Perguntamos e respondemos. Perguntas diárias, ordinárias, curiosas, sem razão, perguntas que querem respostas. Mas nem sempre as respostas respondem. Muitas vezes não são honestas. Sobretudo quando utilizadas para calar aquele que nos inquieta com sua intervenção. Responder, por vezes, leva tempo, cansa.
E como é difícil responder a algumas perguntas. Por exemplo: quem é você? Quem me dera eu pudesse responder a essa pergunta de verdade! Mas mesmo assim eu insisto: meu nome é Fábio, sou mineiro, padre, gosto de música... e assim vai. Faço uma descrição de tudo o que penso conhecer sobre mim mesmo. Relato meus gostos, meus desgostos, meus medos, minhas coragens, meus sabores e meus temores. Falo de mim. E depois me calo. É justamente nesse momento que minha descrição sobre mim mesmo é mais sincera. No momento em que não tenho mais o recurso da voz, eu sou só eu. Sou o mínimo esmiuçado pela desconcertante clareza do silêncio.
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Perguntas que cansam
Fico pensando no mistério de amar. Penso que tenhamos transformado o amor num lugar onde constantemente temos que responder perguntas. Os namorados são assim: onde você foi, com que você estava, pra quem você está olhando?
Multiplicamos as perguntas para justificar nossas inseguranças. Temos medo do silêncio que nada exige, preferimos a pergunta indelicada à resposta do sorriso. Somos calculistas. Queremos a fala, ainda que ela não esteja pronta para ser dita. Queremos a explicação, mesmo quando a ação ainda não foi internalizada. E por isso nos ofendemos, nos machucamos. Não damos tempo para que os acontecimentos se tornem palavras dentro de nós. Queremos extrair do outro uma resposta que ainda nem sequer foi pergunta. Forjamos um conhecimento que ainda não está pronto para nascer. Com isso, abortamos uma experiência que poderia nascer bonita.
O silêncio é uma forma de espera
Creio que tenhamos que aprender a esperar. Esperar é um verbo difícil, mas educador. Quem descobre a beleza da espera geralmente se encanta mais no momento do encontro. Há nela um ensinamento latente, escondido, capaz de tornar o coração mais sensível às realizações que a vida nos oferece. Esperar é uma forma de crer e amar em silêncio. Só esperamos aqueles que amamos, caso contrário nos cansamos. O amor nutre a espera.
Estou dizendo tudo isso, porque hoje ouvi um coração que está sofrendo a dor de ter sido abandonado. Cinco anos de namoro e a menina lhe disse que não o quer mais. Alegou ter se cansado do relacionamento, ficou monótono.
Fiquei pensando no mistério do coração humano, na realidade daquele sofrimento e no quanto o seu mundo havia ficado pequeno. Quando amamos, o mundo se amplia; quando sofremos a rejeição, ele diminui.
A partir do que ouvi, pude chegar a conclusão de que o relacionamento chegou ao fim por uma razão muito simples: os silêncios não comunicavam. Não havia mais mistério entre eles. Todas as perguntas já haviam sido respondidas e isso trouxe monotonia à relação. O ciúme foi excessivo. As mesmas perguntas todos os dias, as mesmas desconfianças e os mesmos conflitos. As declarações de amor eram feitas da mesma forma e, o pior, o silêncio não dizia nadaUma pergunta sem palavras
Tenho uma convicção muito própria que me leva a acreditar que, se quisermos descobrir o que o outro significa em nossa vida, basta ficar a sós com ele e em silêncio. É assim que podemos mensurar o papel que o outro ocupa dentro de nós, no momento em que não há mais nada há ser dito e que a única novidade a ser comunicada somos nós mesmos.
Este é o crivo pelo qual toda relação tem que passar. As falas podem nos distrair, os acontecimentos podem nos mascarar, nossas respostas podem até nos justificar, mas só o silêncio pode nos revelar. É assim que o amor se torna eterno, no momento em que nada mais precisa ser comunicado, tudo já foi dito e o que nos resta é o mistério de recolher silêncios.
Espero que você possa fazer isso um dia
O verbo alcançar pode nos ajudar a entender o que hoje queremos dizer. Estamos falando de conhecimento, de amor e de esperas. Tudo está entrelaçado, como a trama dos teares, que entrelaça os fios para constituir o tecido.
Alcançar o outro coração é uma forma de amar. É um jeito de conhecer, de cuidar e de estabelecer uma honesta relação de cuidado. Pe. Fábio de Melo é padre em Taubaté, São Paulo.
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