O que quero ser......

O que você vai ser quando crescer?


      Infelizmente poucos jovens, no Brasil de hoje podem se fazer esta pergunta. As crianças carentes, que sonham em ser médicos engenheiros, advogados e dentistas, ao começar à adolescência, começam a procurar empregos de babá, faxineira e office-boy. Numa idade que para os mais abastados é começar a sonhar, para os pobres é parar de sonhar e começar a lutar pela sobrevivência. Deixar para lá algumas questões básicas da adolescência, como: o que eu gostaria de fazer? O que me realizaria mais? Qual a contribuição do meu trabalho para melhorar a sociedade?


      Mas para aqueles adolescentes a quem é permitido sonhar, o processo da escolha também não é fácil. Alguns imaginam que num dia acordarão definidos, outros que vai pintar uma luz em algum momento, outros procuram soluções mágicas, outros ainda pedem para que terceiros - tais como pais ou professores - decidam por ele. Há os que seguem as profissões da moda, ou as profissões que seu grupo de amigos pretende abraçar.


      Na verdade, nenhum dos jeitos acima é a melhor saída. A única forma realmente adequada para escolher uma profissão é pensar, e pensar bastante. Pensar em vários aspectos que envolvem esta importante decisão. Por exemplo, conhecer o maior número possível de possibilidades, para que nenhum profissão fique de fora por desconhecimento. Se informar sobre as profissões, através de leituras e conversas, para fazer a opção calcada na realidade e não em distorções e fantasias. Desenvolver o auto conhecimento, isto é, conhecer-se no que se foi e no que se é, para projetar no futuro quem se pretende ser. Informar-se a respeito de como se ''adquire'' uma determinada profissão qual a escolaridade exigida, quais cursos preparam o profissional e qual o custo da formação. Ficar por dentro de todas as transformações que estão acontecendo na organização do trabalho em decorrência da globalização da economia e da introdução de novas tecnologias nos modos de produzir.


      Mas, mesmo estando bem informado, ainda assim não se chega lá. Escolher é ter que optar por uma dentre algumas possibilidades. Possibilidades essas que até podem ser igualmente atraentes, mesmo que por motivos diferentes. Assim, a escolha pressupõe a existência de dúvidas, de conflito, de modo que escolher significa, em última análise, resolução do conflito. Escolher significa, também, não só correr riscos, mas lidar com a perda. Sempre que se decide por uma escolha, também se decide o que se vai perder. Com todas essas dificuldades tanto racionais quanto emocionais não se pode negar que este tipo de escolha representa um ato de coragem.


      A idéia da escolha como um ato de coragem questiona concepções antigas em orientação vocacional. Contesta a noção de que haveriam formas pré-estabelecidas às quais o jovem deveria se encaixar, pois sua felicidade e seu futuro estariam em jogo caso não encontrasse o enquadre perfeito. A vocação não pode mais ser entendida como atributo inato (ou mesmo adquirido, mas cristalizado a partir de uma certa idade), que direcionaria o adolescente para determinada ocupação. Este conceito, definido pelos dicionários como chamamento, predestinação, hoje está sendo questionado pela realidade mutante do mercado de trabalho: cada vez mais o indivíduo deve se apresentar poli-apto se quiser concorrer no mercado com igualdade de condições. Cada indivíduo é único, assim como as suas capacidades, que estão em construção permanente, e por isso podem ser aperfeiçoadas e até mesmo modificadas. Ninguém nasce para determinada profissão: todos os indivíduos, a princípio, estão em condições de aprender as habilidades necessárias para qualquer profissão.


      Numa sociedade tecnologicamente cada vez mais complexa e mutante, e com mercado de trabalho cada vez mais competitivo, a escolha profissional não é uma tarefa fácil para o adolescente. Vencer este desafio exige do jovem uma reflexão criativa sobre o eu no mundo - a sua singularidade frente à realidade externa. Como educadores, não basta sermos somente fonte de informações. Como pais, não podemos mais esperar que os filhos alcancem a felicidade seguindo os nossos modelos. Só estaremos ajudando os adolescentes no intrincado desafio da escolha vocacional se respeitarmos profundamente todos os seus passos no caminho a uma escolha livre e consciente.

      Portanto jovem, escolha bem o queres ser..Pois essa escolha só depende de você!

 

Silvio Bock* Publicado na Revista Pais & Teens

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